Capítulo 5 – Pequenas mudanças, grandes negócios.-13
Quarta-feira, dia 4 de Novembro, 16:16, estúdio.
Guys:
- Wow! – Micael exclamou, assim que entrou no estúdio. Eu estava atrás dele, e como o seu cabeção – o de cima, que fique bem claro – estava na frente, não conseguia ver nada. Não sabia por que, mas estava muito ansioso pra ver aonde nós iríamos gravar. Nunca havia estado num estúdio de gravação de verdade antes. Na verdade, nós só havíamos tocado no nosso quartinho improvisado. Então, quando Lua nos ligou mais cedo avisando que gravaríamos às 16h, meu coração se acelerou de um jeito que nunca havia acelerado antes. Nem mesmo quando tive minha primeira vez, e eu jurava que nunca mais ficaria nervoso daquele jeito.
Sim, garotas, homens também ficam nervosos na primeira vez. Tive um amigo que chegou a vomitar um pouco antes de saber que ia rolar. Mas eu nunca faria isso. Nunca mesmo… Eu sou macho! Macho que é macho não vomita antes de algo importante como isso!
- Vai vomitar de novo, Thur? – Micael perguntou, e os três desataram a rir.
Droga!
Assim que eu entrei, meus pés não me obedeceram mais. Pedro e Chay, que entraram atrás – entraram atrás de mim no estúdio, que fique bem claro – assoviaram ao mesmo tempo, daquele jeito uau-isso-tudo-é-pra-mim?
As paredes e o carpete da sala técnica eram revestidos de madeira, e três cadeiras de couro gigantes estavam ocupadas por dois caras gordos e um magricela, que eu pensei ser o estagiário ou algo do tipo. O ar-condicionado estava na temperatura ideal, e, em cima da mesa vermelha – e gigante – encostada no fundo da sala estavam vários sacos do McDonald’s e vários copos da Starbuck’s. Em frente à porta grande e de aspecto pesado que dava acesso à sala de gravação, Lua nos esperava, com uma cara nada boa.
- O quê? – perguntei, alto o suficiente para que todos ouvissem, mas os três caras sentados com fones de ouvido nem sequer olharam para nós quatro ali parados.
- Regra número um, Aguiar: Nunca, e quando eu digo nunca, é nunca – ela entortou a boca de um jeito sombrio –, chegue atrasado em uma gravação. É o melhor jeito de impressionar seu produtor de uma maneira errada.
Uau. Ela sabia mesmo como ser assustadora às vezes.
- Foi mal, Lua, nós… – Pedro foi tentar se desculpar, mas ela só deu as costas e entrou pela porta pesada que dava à sala de gravação. Entreolhamos-nos e olhamos para os caras nas cadeiras, que ainda nos ignoravam. Então eu fui atrás dela, e os guys foram atrás de mim – novamente, de um jeito totalmente heterossexual.
Lá dentro, o ar-condicionado estava bem alto, mas eu sabia que depois de três segundos tocando estaria morrendo de calor, e ele seria necessário. O chão era forrado por um carpete cinza felpudo, e nós quatro tiramos os tênis e os deixamos na porta, imitando Lua, que estava descalça. As paredes eram duplas e fortemente revestidas por espuma, e a porta parecia aquelas de frigoríficos. No fundo da sala, uma bateria Mapex completa com pratos Zildjian reluzia, preta e perfeita. Ao seu lado, um baixo Musicman Stingray sunburst com o escudo preto estava descansando no apoio. Um pouco mais à frente, mais ou menos no meio da sala, uma guitarra Fender Stratocaster preta com escudo preto era a que mais chamava atenção. Um pouco para o lado dessa Fender, uma guitarra Gibson Les Paul vermelha com o escudo branco que, na minha opinião, era a mais bonita, fechava o círculo de instrumentos mais-caros-que-a-nossa-casa.
Meu queixo caiu.
Nós… Nós iríamos tocar com aqueles instrumentos ou só estava tendo delírios?
- Esses, hm, instrumentos agora são seus. – Lua me tirou do devaneio. Virei meu rosto completamente para ela. Seu queixo estava tenso, e seu cabelo solto, jogado pelos ombros. Os olhos, como sempre, pintados de preto, e as unhas roídas eram metade cor de unha, metade pretas. Mas, mesmo assim, conseguia ser bonita. Imaginei como seria quando eu a transformasse em uma garota vaidosa. Será que eu me apaixonaria por ela?
Haha, no way!
Mas, espera… Ela havia dito que os instrumentos seriam nossos e eu estava mais preocupado em pensar em como ela ficaria com as unhas pintadas?
Meu Deus, eu tinha que parar de assistir Extreme Makeover de madrugada!
Rápido.
- Isso é sério!? – Chay perguntou, com os olhos arregalados. – Isso é sério mesmo?
- Sim… Eu pensei que, bom, já que vocês vão ser produzidos pela equipe da minha madrasta, precisariam de instrumentos melhores, pro trabalho deles não ficar ruim. – ela deu de ombros, colocando a correia preta da Gibson Les Paul nos ombros. – E tomem um cuidado especial com essa aqui. Foi minha primeira guitarra.
Quem tem uma Les Paul como primeira guitarra?
Ah, espera aí: A enteada de uma das melhores produtoras do mundo tem.
Ela devolveu a guitarra no pedestal e colocou as mãos na cintura.
- E, por favor, me chamem de Lu. – então ela puxou as baquetas do bolso da calça e apontou para nós quatro. – E aí, vamos começar?
cap 14
Capítulo 6 – Fama com gostinho de vômito.
Quinta-feira, dia 5 de Novembro, 11:32, matando a quinta aula.
Girls:
Minha cabeça rodava, e não era do vinho barato que estávamos tomando. Para o meu alívio, Sophia deu a ideia de matarmos aula para ouvirmos sobre a noite anterior que passou conversando com Micael, então não tive que ouvir ninguém falar – fora minhas amigas.
Eu estava um cocô. Não dormira direito na noite passada, ocupada demais pensando na conversa que tivera mais cedo com Thur e na sua indiferença em me ver quase como vim ao mundo. E quando percebi que estava perdendo meu sono por causa daquele idiota, fiquei mais brava ainda, e não consegui dormir de vez. Fiquei rolando na cama até dar o horário de levantar, tomei banho e vim para a escola.
Para piorar minha dor de cabeça, ao chegar à escola, as meninas estranharam minha aparência e ficaram me zoando. Não que eu estivesse loira ou usando arquinhos coloridos, mas meu cabelo estava um pouco mais claro e meu uniforme um pouco menos largo, o que já era uma grande mudança para elas.
Vimos as três primeiras aulas – na verdade eu dormi nas primeiras três aulas – e fomos para o intervalo, graças a Deus não encontramos com os McMoscas pelo caminho. Deviam estar galinhando pelo pátio cool, nos deixando um pouco em paz.
Na verdade, não tinha mais nada contra os outros meninos, mas estava tão brava com Thur que se o encontrasse pelo caminho não me responsabilizaria por meus atos. E eu nem sabia exatamente por quê. Porque, quero dizer, eu não estava nem aí pra sua opinião ou falta dela sobre a minha aparência!
Bom, talvez eu estivesse um pouco aí, se não teria dormido como um anjo na noite passada…
Mas, nós assistimos a quarta aula e lá pelo final dela, Sophia sugeriu que fôssemos ao nosso lugar secreto para ela terminar de contar a interminável e tediosa história de amor. Mas, como eu disse lá em cima, não poderia me queixar. Na verdade, estava pulando de felicidade pela brilhante ideia.
- Droga, gente, eu tô perdendo matéria de química! – Mel reclamou, bufando. Eu dei de ombros, Rayanna continuou a observar os meninos do primeiro ano jogarem futebol e Sophia continuou falando sem parar, como se tivesse uma vitrola na garganta:
- Aí nós fomos dar uma volta no quarteirão! Foi lindo… Ele me emprestou a blusa porque eu estava com frio e tropeçou no meio fio e ficou me perguntando quais eram minhas bandas favoritas e… Vocês pelo menos estão fingindo que estão me ouvindo? – perguntou, apertando os olhos com cara de hiena faminta.
- Eu estou te ouvindo! – Rayanna virou-se para ela, sorrindo carinhosamente. – Mas prefiro ouvir enquanto olho praquele repetente do primeiro ano… – virou o rosto novamente, encarando com luxúria um garoto que estava no gol e mais parecia pai dos colegas de classe de tantos pêlos faciais que tinha.
- Eu também estou. – Mel disse, ainda com a cara amarrada. – Mas preferia estar ouvindo a aula de química… – terminou, resmungando baixinho.
- Eu estou. – disse, dando de ombros. – “Micael é o cara mais fofo do mundo” e blábláblá… – imitei sua voz e ela mostrou o dedo do meio pra mim. – Ele acertou seu nome dessa vez!?
- Vaca! – Sophia exclamou, enquanto o resto de nós ria.
Eu só estava zoando. Queria que ela fosse feliz, mesmo que sua felicidade dependesse do amor de Micael Borges.
Que decadência amorosa…
Mas eu nunca me meteria nos gostos delas… E até que Micael era ajeitadinho!
De algum modo bizarro.
- Por falar nisso, e aí, Lu, como vão seus novos amiguinhos!? – Rayanna provocou, sorrindo de um jeito detestável. Não que ela conseguisse ficar detestável… Era adorável demais pra isso. Mas a pergunta conseguiu me irritar. Aliás, tudo que lembrava o Thur estava me irritando.
- Não enche o saco, Ray. – mostrei o dedo do meio para ela. – Eles não são meus amigos, são só quatro garotos que vão me fazer ganhar um carro. Aliás, ontem eu terminei o MySpace e adicionei 300 amigos novinhos em folha, todos do Rio … Até o próximo final de semana, com a minha ajuda e seus rostinhos de boy-band, pré-adolescentes de todo o país vão chorar aos pés deles, minha mãe vai ter seu/meu namorado e eu vou poder ter sossego enfim.
- Então é isso? – Mel perguntou. – Você só vai mostrá-lo para sua mãe e o quê? Dizer que ele sofre de amnésia e não quer mais saber de você?
- Aí eu vou enrolar ela por uns 3 meses e dizer que nós terminamos. – sorri vitoriosa. – Simples assim! Sem dor, sem drama, sem sentimentos!
- Sabia que quando você não está sendo nerd você está sendo amedrontadora? – Rayanna perguntou, com os olhos esbugalhados.
- Eu sei… – suspirei. – Essa é minha sina…
- Duvido que você esteja fazendo tudo isso só por causa de um carro. – Sophia murmurou, como um pensamento alto, logo em seguida fazendo aquela cara de droga-deixei-escapar.
- O que você quer dizer com isso? – perguntei.
- Nada… – ela deu pra trás, dando de ombros.
- O que ela quis dizer, Lu, é que nós sabemos que você sempre achou o Thur bonito, e que talvez esse planinho seja só para se aproximar dele! – Mel disse, recebendo um empurrão de Sophia. – O quê!? Vocês também pensam assim!
Virei os olhos.
Então minhas amigas tinham teorias sobre minhas verdadeira intenções!?
Ótimo…
Era claro que eu o achava bonito. Por quê? Porque ele era! Lindo… Mas para se apaixonar por alguém era preciso mais do que um rostinho – e corpo, cabelo, olhos, mãos… – bonito. E eu definitivamente nunca me apaixonaria por Arthur Aguiar!
Nunca!
Nunca?
- Sim, eu o acho bonito. – concordei, e ela sorriu daquele jeito sou-a-próxima-sherlock. – Mas também acho ele idiota, imbecil, sem graça, burro e muitos outros adjetivos não muito legais… E, não sei se vocês se esqueceram, mas foi ele quem veio me procurar! Eu não fiz com que ele formasse uma banda e muito menos fiz seu pai cobrar uma coisa que ele não conseguiria fazer sozinho. Ah, claro, e o ataque de esquizofrenia também afetou em suas cabeças o fato de que foram vocês que me encheram o saco para aceitar ajudá-lo. - olhei para Sophia de relance. - E outra, mesmo se eu o achasse bonito e quisesse me aproximar dele, vocês sabem muito bem que ele sempre me veria como uma nerd esquisita!
Novamente me lembrei da conversa da noite anterior e senti meu rosto queimar. Passei o dia inteiro tentando não pensar naquilo, mas, por mais que eu tentasse, as lembranças do seu rosto contorcido em surpresa sempre apareciam na minha mente como um flash. Por favor, ele deixou bem claro que não se sentia nem um pouco atraído por mim! Até virou o rosto para não me ver quando eu tirei a roupa na frente dele!
E olha que eu me depilei inteira enquanto tomava banho…
Quero dizer, que tipo de garoto vira o rosto diante de uma garota semi-nua!?
Não que fosse minha intenção deixá-lo apaixonado por mim tirando minha roupa de um jeito sexy e sedutor. Nada disso! Eu só queria saber o que ele achava sobre o meu tipo de corpo… Só porque eu usava uma calcinha preta e fazia cara de garota indefesa não queria dizer que eu queria conquistá-lo. Longe disso! Só queria uma opinião sincera baseada em uma prova concreta, mais nada. E só porque eu me curvei em sua direção para pegar a chave do seu carro não queria dizer que eu queria tentar impressioná-lo uma última vez. Nunca… Só queria mandá-lo embora.
Mas, mesmo se tudo isso fosse intencional, ele não demonstrou o menor interesse.
Claro que a gagueira e a cara de nervoso apontavam ao contrário… Mas me agarrei perdidamente ao fato de que ele virou o rosto para mim.
Definitivamente ele não queria nada comigo.
Mas é claro que minhas amigas não precisavam saber desses detalhes sórdidos.
- E aí, o que vamos fazer hoje!? – Rayanna mudou de assunto, percebendo que eu não iria ceder tão cedo. – Não quero ficar em casa, meus pais só sabem brigar! E quando não estão brigando entre eles, estão brigando comigo!
- Sei lá, nós poderíamos… – comecei a falar, mas fui interrompida por um barulho baixinho vindo da porta de acesso ao telhado. Todas nós olhamos em direção a ela. Então o barulho começou a ficar mais alto e mais rápido; depois vieram as risadas.
Nos entreolhamos, assustadas.
Aquele era nosso lugar secreto! Ninguém daquela escola inteira teria cérebro o suficiente para ter a ideia de subir as escadas de incêndio e matar aula no telhado! O máximo que os alunos faziam era pular o muro e ir encher a cara no Loui’s, o pub em frente ao colégio.
Quem diabos poderia conhecer o nosso esconderijo!?
Escondi meu maço de cigarros e Sophia colocou a garrafa de vinho dentro da bolsa. Sentamos-nos corretamente e esperamos. O barulho ficava mais alto, e nós começamos a reconhecer palavras e expressões. “Dude” e “Foda-se” eram as mais faladas.
Então a porta se abriu…
…E eu fiquei com vontade de morrer.
O que os McMoscas estavam fazendo ali!?
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